Por que você deveria parar de beber (ou diminuir o consumo)
O que o álcool faz com seu fígado, seu coração e seu cérebro — e o que os exames de imagem revelam quando você ainda acha que está bem
Saideira: uma cerveja depois do trabalho, uma taça de vinho no fim de semana, uma rodada entre amigos. Mas o corpo, ao contrário do que o senso comum sugere, não separa o prazer social do dano biológico. A conclusão dominante de um conjunto de estudos e recomendações mais recentes é a de que não há dose, por pequena que seja, com risco zero à saúde.
O uso nocivo do álcool está relacionado a mais de 200 doenças e lesões. Em todo o mundo, três milhões de mortes ao ano resultam do uso descontrolado da substância, o que representa cerca de 5,3% de todas as mortes. No Brasil, o cenário preocupa: o consumo abusivo de álcool pela população geral subiu de 18,4% para 20,8% entre 2021 e 2023, segundo o relatório Vigitel do Ministério da Saúde.
O que acontece com o fígado de quem bebe com regularidade
O fígado é o primeiro a pagar a conta. É ele quem metaboliza quase todo o etanol ingerido, transformando-o em acetaldeído — uma substância tóxica e reconhecidamente cancerígena. Estima-se que entre 90% e 100% dos bebedores pesados crônicos desenvolvam doença hepática gordurosa como consequência precoce.
Esse estágio inicial, chamado de esteatose hepática, ainda é reversível. O problema é que a maioria das pessoas não sabe que está nele. Há evidências de que o consumo não-moderado de bebidas alcoólicas pode causar esteatose hepática, conhecida também como fígado gorduroso. Essa doença é causada pelo acúmulo de gordura nas células do fígado, podendo regredir ou evoluir para a hepatite alcoólica, uma inflamação cujos sintomas são dor abdominal, inchaço da barriga, pele e olhos amarelados, náusea, vômito e perda de apetite.Até 40% desses casos podem evoluir para cirrose, inflamação crônica irreversível que altera a capacidade do fígado de funcionar adequadamente.
É justamente aí que entram os exames de imagem — muitas vezes antes de qualquer sintoma. No ultrassom de abdômen, o fígado esteatótico aparece com brilho aumentado, sinal do acúmulo de gordura nos hepatócitos. Em estágios mais avançados, a superfície do órgão se torna irregular, com contornos nodulares — achado sugestivo de cirrose. A elastografia hepática, por sua vez, mede a rigidez do tecido hepático: quanto mais fibrose, mais rígido o fígado, e mais alto o valor encontrado no exame.
“A elastografia hepática é um exame fundamental para o diagnóstico e acompanhamento de doenças hepáticas. Através dele, podemos identificar precocemente lesões no fígado e iniciar o tratamento adequado, evitando complicações mais graves”, explica o Dr. Armênio Mekhitarian, médico radiologista e diretor técnico do Instituto Avançado de Imagem (IAI). “O paciente muitas vezes chega ao exame sem sintomas, achando que está bem — e o laudo revela um quadro que já avançou em silêncio por anos”.
O impacto sobre o sistema de saúde é direto e mensurável. Entre janeiro de 2013 e junho de 2018, a doença hepática alcoólica causou mais de 90 mil internações e mais de 16 mil óbitos no Brasil, segundo dados do Datasus. Entre 2020 e 2023, 95% das internações por doença hepática alcoólica foram classificadas como urgência, evidenciando que os pacientes chegam ao hospital já em situação crítica.
O que o álcool faz com o coração e o cérebro
A lista de danos não para no fígado. O consumo de álcool aumenta o risco de miocardiopatias, hipertensão, fibrilação atrial e acidente vascular cerebral hemorrágico e isquêmico quando o consumo é abusivo.
No ultrassom com Doppler cardiovascular, é possível identificar alterações da função ventricular esquerda em pacientes com histórico de consumo pesado — um achado que precede quadros de insuficiência cardíaca.
No cérebro, os efeitos são igualmente graves. O etanol e seu metabólito, o acetaldeído, têm ação neurotóxica direta. Pesquisas recentes revelam que até mesmo uma taça de vinho ou uma cerveja por dia já pode causar redução no volume cerebral, e quanto mais a pessoa bebe, mais rápido o cérebro envelhece.
Mais de 80% dos alcoolistas apresentam deficiência de tiamina, vitamina B1 essencial para o funcionamento cerebral. Uma parcela dessas pessoas sofrerá consequências severas, como a Síndrome de Wernicke-Korsakoff, que inclui confusão mental, paralisia dos nervos oculares e dificuldades de coordenação motora.
Em exames de neuroimagem — especialmente na ressonância magnética —, o consumo crônico pode aparecer como atrofia cortical, redução do volume do hipocampo e, nos casos mais graves, lesões de substância branca. São marcas deixadas por anos de exposição a uma substância que o cérebro nunca foi feito para metabolizar em quantidade.
Parar de beber: o que muda — e o que não volta
O fígado tem enorme capacidade de regeneração. Os três primeiros estágios da lesão hepática — esteatose, inflamação crônica e formação de cicatrizes — são reversíveis durante a abstinência do álcool. A esteatose alcoólica é, em geral, reversível com abstinência sustentada — em uma semana de abstinência, a diferença já é significativa.
A cirrose, no entanto, é outro caso: trata-se de uma fibrose extensa que compromete irreversivelmente a arquitetura do órgão. No cérebro, os dados também apontam para recuperação parcial. Um estudo realizado por pesquisadores das universidades de Stanford e da Califórnia mostrou que, em sete meses sem bebida, os 40 dependentes que se mantiveram abstinentes alcançaram quase o mesmo volume cerebral esperado de alguém que não abusa da bebida.
Parte das perdas — como redução de volume cerebral e prejuízo cognitivo — pode não ser recuperada totalmente, especialmente se o consumo foi frequente ou prolongado.
Isso coloca a questão da chamada “moderação” sob nova luz. A American Heart Association, em declaração publicada em 2024, concluiu que as evidências disponíveis não sustentam a recomendação do consumo moderado de álcool como estratégia preventiva para doenças cardiovasculares. O argumento do “um copinho não faz mal” não encontra mais respaldo científico sólido.
Segundo o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), a cirrose hepática ultrapassou o número de mortes por embriaguez ao volante e se tornou a principal causa de mortes atribuída ao álcool no país, representando 18,5% das mortes atribuíveis ao uso de álcool.
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Fontes:
Dr. Armênio Mekhitarian – Diretor Clínico do Instituto Avançado de Imagem – Médico Radiologista – CRM SP 59.512 | RQE 45534
BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2024/nota-tecnica-conjunta-no-263-2024-svsa-saps-saes-ms.pdf
CENTRO DE INFORMAÇÕES SOBRE SAÚDE E ÁLCOOL (CISA). Panorama Álcool e a Saúde dos Brasileiros 2024. Disponível em: https://cisa.org.br/images/upload/Panorama_Alcool_Saude_CISA2024.pdf
CENTRO DE INFORMAÇÕES SOBRE SAÚDE E ÁLCOOL (CISA). Alcoolismo: 10 danos à saúde. Disponível em: https://cisa.org.br/pesquisa/artigos-cientificos/artigo/item/53-alcoolismo-10-danos-a-saude
CENTRO DE INFORMAÇÕES SOBRE SAÚDE E ÁLCOOL (CISA). Efeitos danosos do álcool no cérebro. Disponível em: https://cisa.org.br/pesquisa/dados-oficiais/artigo/item/54-efeitos-danosos-do-alcool-no-cerebro
CENTRO DE INFORMAÇÕES SOBRE SAÚDE E ÁLCOOL (CISA). Seu corpo consegue se recuperar do alcoolismo? Disponível em: https://cisa.org.br/sua-saude/informativos/artigo/item/459-seu-corpo-consegue-se-recuperar-do-alcoolismo
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Consumir bebidas alcoólicas em qualquer quantidade aumenta o risco de desenvolver câncer. Disponível em: https://www.inca.gov.br
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. O que acontece com seu corpo quando você deixa de beber por um mês. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2025/03/o-que-acontece-com-seu-corpo-quando-voce-deixa-de-beber-por-um-mes
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