Quer começar a correr? As dicas (e exames) para não deixar a saúde de lado
Entenda quando os exames entram nesse processo e por que a checagem inicial faz diferença tanto para o coração quanto para as articulações
Comprar um tênis, baixar um aplicativo de corrida e sair para o primeiro treino. Para muita gente, é assim que começa a relação com a corrida de rua, hoje o quarto esporte mais praticado no país.
Em 2025, o Brasil chegou a 15 milhões de corredores, um crescimento de 15% em relação ao ano anterior, segundo o estudo “Por Dentro do Corre”, realizado a pedido da Olympikus. O número de provas oficiais também disparou: foram 5.241 corridas de rua registradas no país em 2025, contra 2.827 em 2024, alta de 85%, de acordo com levantamento da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (Abraceo).
O problema é que, entre o entusiasmo e o primeiro treino, poucos param para pensar em corrida e exames antes de aumentar a carga de esforço. A avaliação prévia, especialmente para quem é sedentário há anos, ainda é vista como um passo dispensável.
Corrida e exames: o que avaliar antes do primeiro treino
Antes de iniciar um programa de exercícios, principalmente pessoas sedentárias ou com fatores de risco cardiovascular deveriam passar por avaliação médica. A Atualização da Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício, publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) em parceria com a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), trata exatamente desse tema: a avaliação pré-participação esportiva, que inclui histórico clínico e familiar, exame físico e, quando indicado, exames complementares.
A lógica é entender o perfil de risco de cada pessoa antes de recomendar a intensidade do treino. Quem já pratica atividade física regularmente tem uma trajetória diferente de quem vai sair do sedentarismo direto para uma meta de 5 km.
Os riscos cardiovasculares de começar a correr sem avaliação
Os episódios de morte súbita durante corridas, embora recebam grande repercussão quando acontecem, são raros. Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício aponta que a incidência de morte súbita em corredores de maratona varia entre 0,75 e 2 casos a cada 100 mil participantes, enquanto a parada cardíaca sem óbito varia entre 1,01 e 2,6 por 100 mil. A doença arterial coronariana e a cardiomiopatia hipertrófica estão entre as causas mais associadas a esses eventos, e os homens são mais suscetíveis.
O ponto de atenção é a combinação entre esforço intenso e uma condição cardíaca não identificada previamente. Por isso a anamnese detalhada, incluindo histórico familiar de morte súbita ou doença cardíaca precoce, segue como primeira etapa antes de qualquer recomendação de treino.
Nos casos em que a avaliação cardiológica identifica necessidade de investigação adicional, exames de imagem como o ultrassom com Doppler podem ser solicitados para avaliar a circulação e descartar alterações vasculares que mereçam acompanhamento antes da liberação para treinos de maior intensidade.
O papel do ultrassom
Se o risco cardiovascular é raro, as lesões por sobrecarga são a queixa mais comum entre corredores. Estudos apontam que até metade dos praticantes de corrida sofre algum tipo de lesão ao longo de um ano de treino, a maioria ligada ao aumento rápido de volume ou intensidade sem adaptação progressiva.
Canelite, fascite plantar, tendinite do tendão de Aquiles, síndrome do trato iliotibial e dor patelofemoral estão entre as mais frequentes. A canelite, por exemplo, chega a acometer entre 10% e 14% dos corredores, principalmente iniciantes que aumentam a distância antes de o corpo se adaptar ao impacto repetitivo.
“O ultrassom é um exame muito útil na avaliação de tendinites e lesões musculares em corredores, porque permite visualizar a estrutura em tempo real, inclusive durante o movimento articular. Isso ajuda a diferenciar uma inflamação inicial de uma lesão mais estruturada, o que muda completamente a conduta“, explica Dr. Armênio Mekhitarian, médico radiologista e diretor técnico do Instituto Avançado de Imagem (IAI).
Segundo o especialista, a indicação do exame de imagem para o corredor não deveria ser automática. “O exame entra quando há uma queixa específica: dor que persiste, que piora com o treino ou que muda o jeito de pisar. Corredor que já treina há anos e sente uma dor pontual tem uma investigação diferente de quem começou a correr há duas semanas e sente desconforto muscular esperado da adaptação“.
Essa distinção entre dor esperada, típica da adaptação inicial ao impacto, e dor de alerta, que persiste, piora ou altera o padrão de movimento, é o que costuma orientar o momento certo de buscar avaliação médica e, se necessário, exame de imagem.
Antes de calçar o tênis
Especialistas em medicina esportiva reforçam alguns pontos simples: progressão gradual de distância e intensidade, fortalecimento muscular, atenção ao tipo de calçado e respeito aos períodos de descanso. Para quem é sedentário, tem mais de 40 anos ou possui fatores de risco cardiovascular, a orientação é buscar avaliação médica antes de estabelecer metas de treino, e não depois que o desconforto já apareceu.
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Fontes:
Dr. Armênio Mekhitarian – Diretor Clínico do Instituto Avançado de Imagem – Médico Radiologista – CRM SP 59.512 | RQE 45534
Corridas de rua crescem 85% no Brasil e entram em nova fase de maturidade do mercado. Fitness Brasil. Acesso em 9 de julho de 2026. Disponível em: https://www.fitnessbrasil.com.br/newsfitbr/corridas-de-rua-crescem-85-no-brasil-e-entram-em-nova-fase-de-maturidade-do-mercado/
Atualização da Diretriz em Cardiologia do Esporte e do Exercício. Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE). Acesso em 9 de julho de 2026. Disponível em: https://nutritotal.com.br/pro/material/diretriz-em-cardiologia-do-esporte-e-do-exercicio/
Morte súbita e parada cardíaca em corredores de maratona: taxas de incidência e causas. Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício, 2020. Acesso em 9 de julho de 2026. Disponível em: https://convergenceseditorial.com.br/index.php/revistafisiologia/article/view/3933
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