O que é gordura visceral e por que ela importa

O que é gordura visceral e por que ela importa

Entenda a diferença entre a gordura que se vê e a que realmente preocupa o médico

Toda gordura corporal não é igual. A que se acumula sob a pele, na barriga, no quadril, nas coxas, é a gordura subcutânea, visível e palpável. Já a gordura visceral se instala mais fundo, ao redor de órgãos como fígado, pâncreas e intestino, dentro da cavidade abdominal. Uma pessoa pode ter pouca gordura subcutânea e, ainda assim, acumular quantidade relevante de gordura visceral, sem que isso apareça no espelho ou na balança.

Essa distinção importa porque as duas gorduras se comportam de formas diferentes no organismo. A gordura visceral é metabolicamente ativa: libera substâncias inflamatórias e hormônios que interferem na forma como o corpo processa glicose e gordura, o que a torna um fator de risco mais direto para diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares do que a gordura subcutânea.

Gordura visceral e o risco cardiometabólico

O acúmulo de gordura visceral está associado a maior prevalência de alterações metabólicas, hormonais e inflamatórias, que juntas aumentam o comprometimento da microvasculatura e afetam órgãos como coração e rins. A inflamação de baixo grau provocada por esse tipo de gordura favorece a formação de placas nas artérias, um processo que pode levar décadas para dar sintomas.

No Brasil, o cenário de fundo é preocupante. Dados do Vigitel 2025, analisados pela Sociedade Brasileira de Diabetes, mostram que a prevalência de obesidade cresceu 118% desde 2006, enquanto o diagnóstico de diabetes tipo 2 aumentou 135% no mesmo período. Como o excesso de gordura abdominal está entre os principais fatores de risco para o diabetes tipo 2, o crescimento das duas curvas caminha lado a lado.

Gordura visceral não é sinônimo de sobrepeso visível

Um dos equívocos mais comuns é associar gordura visceral apenas a quem está acima do peso. Existe um perfil descrito na literatura médica como “magro metabolicamente obeso”, em que a pessoa tem índice de massa corporal normal, mas concentra volume relevante de gordura ao redor dos órgãos internos. Esse fenômeno, também chamado de TOFI (thin outside, fat inside), aparece com frequência em pessoas sedentárias ou com alimentação rica em ultraprocessados, mesmo sem excesso de peso aparente.

Um dos principais reflexos clínicos da gordura visceral é a esteatose hepática, o acúmulo de gordura no próprio fígado. No Brasil, estudos apontam prevalência entre 30% e 35% em adultos, chegando a até 70% entre pessoas com obesidade. Em nível global, a condição, hoje chamada de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), já afeta cerca de 38% dos adultos e aproximadamente 65% das pessoas com diabetes tipo 2.

É comum identificarmos esteatose hepática em pacientes que fazem ultrassom por outro motivo e não sabiam que tinham essa alteração. Muitas vezes o paciente não está acima do peso, o que reforça que gordura visceral não é uma questão só de estética, é uma questão metabólica“, explica Dr. Armênio Mekhitarian, médico radiologista e diretor técnico do Instituto Avançado de Imagem (IAI).

Como avaliar a gordura visceral e seus efeitos no fígado

A circunferência da cintura segue como um dos indicadores mais práticos de gordura visceral: valores acima de 94 cm em homens e 80 cm em mulheres já indicam risco metabólico aumentado, segundo consensos amplamente utilizados na prática clínica. Mas para entender o impacto real dessa gordura sobre o fígado, o exame de imagem tem papel central.

O ultrassom abdominal identifica a presença de gordura no fígado, mas não mede o grau de comprometimento do tecido. A elastografia hepática vai além: avalia a rigidez do fígado e permite estimar o grau de fibrose de forma não invasiva, sem a necessidade de biópsia na maioria dos casos“, afirma Dr. Mekhitarian.

Esse detalhe muda a conduta clínica. Um achado de esteatose sem avaliação de fibrose diz pouco sobre o risco de progressão da doença. Já a estratificação por elastografia ajuda o médico a decidir quem precisa de acompanhamento mais próximo e quem tem baixa probabilidade de complicações a curto prazo, o que evita tanto a subestimação quanto o excesso de exames invasivos.

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Fontes:

Dr. Armênio Mekhitarian – Diretor Clínico do Instituto Avançado de Imagem – Médico Radiologista – CRM SP 59.512 | RQE 45534

Obesidade visceral, hipertensão arterial e risco cárdio-renal: uma revisão. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia (SciELO). Acesso em 13 de agosto de 2026. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abem/a/F4GvJWD7NNQ5xp86tp4NG7c/?format=html&lang=pt

Obesidade e diabetes tipo 2 crescem no Brasil, mostra pesquisa. Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026. Acesso em 13 de agosto de 2026. Disponível em: https://diabetes.org.br/obesidade-e-diabetes-tipo-2-crescem-no-brasil-mostra-pesquisa/

 

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