Na onda da Copa do Mundo: os exames que os jogadores fazem
O check-up de um atleta de alto rendimento inclui uma bateria de exames de imagem que qualquer pessoa fisicamente ativa deveria conhecer
A Copa do Mundo de 2026 começou, e, com ela, voltam a circular imagens de bastidores que a maioria dos torcedores raramente para para pensar: atletas fazendo ressonância magnética após um torneio físico, passando por ecocardiograma na chegada ao centro de treinamento, recebendo resultado de ultrassom antes de uma decisão. Quando os jogadores convocados pela seleção brasileira chegaram à Granja Comary, em Teresópolis, um dos primeiros itens da programação foram as avaliações médicas.
Por que o ecocardiograma é obrigatório
A morte súbita cardíaca em atletas atinge principalmente jovens, tendo como causa mais frequente a cardiomiopatia hipertrófica. A doença, que costuma ter origem genética, é caracterizada pela hipertrofia do músculo cardíaco e, apesar de grave, costuma ser silenciosa: 90% dos casos são assintomáticos. Isso significa que o atleta corre, treina, compete e não sente nada.
É por essa razão que o eletrocardiograma e o ecocardiograma fazem parte do protocolo mínimo de avaliação pré-participação esportiva. O protocolo da FIFA recomenda a realização de eletrocardiograma de doze derivações para todos os atletas, independentemente da idade.
Quando o exame aponta alguma alteração, ou quando há histórico familiar de problemas cardíacos, o passo seguinte é o ecocardiograma: um ultrassom do coração que avalia as câmaras, as paredes, as válvulas e a função contrátil do órgão. O ecocardiograma complementa o eletrocardiograma de forma essencial na detecção de condições como a miocardiopatia hipertrófica.
Qualquer pessoa acima de 40 anos que pratica atividade física com regularidade, ou que tenha histórico familiar de doença cardíaca, pode e deve conversar com seu médico sobre a necessidade do exame.
Onde o ultrassom ainda é subutilizado
Grandes clubes europeus preconizam a realização de ressonância magnética de articulações de alto impacto, como joelhos, tornozelos e bacia, como parte da avaliação médica de admissão. A ressonância mapeia o estado estrutural das articulações e detecta lesões prévias que poderiam passar despercebidas no exame físico convencional.
Mas entre os exames de imagem, um recurso ainda pouco utilizado fora do contexto de alto rendimento é o ultrassom musculoesquelético. O exame permite avaliar tendões, músculos, bursas e ligamentos, com a vantagem de não usar radiação e de poder ser feito durante o próprio movimento.
“O ultrassom musculoesquelético ainda é subexplorado na medicina do esporte fora do contexto profissional“, afirma Dr. Armênio Mekhitarian, médico radiologista e diretor técnico do Instituto Avançado de Imagem (IAI).
“No acompanhamento de lesões de tendão e musculares, ele permite visualizar o tecido em dinâmica, durante a contração e o relaxamento, o que a ressonância não oferece. Isso tem impacto direto na decisão sobre retorno ao esporte e no controle do processo de cicatrização“.
Rupturas do ligamento cruzado anterior, entorses de tornozelo, lesões meniscais e lesões musculares na região posterior da coxa estão entre as mais comuns no futebol profissional. Em muitas dessas situações, o ultrassom é o primeiro exame capaz de confirmar a extensão do dano e orientar o tempo de recuperação.
A prevenção passou a ter um papel tão importante quanto o próprio tratamento das lesões. Fortalecimento muscular, acompanhamento fisioterapêutico e monitoramento da fadiga são estratégias fundamentais para reduzir riscos e preservar a saúde dos atletas.
Os exames clínicos e laboratoriais complementares não devem ser realizados apenas por profissionais de elite, mas também por pessoas sedentárias ou que praticam atividades físicas rotineiras. A lógica é a mesma: identificar o que está silencioso antes que vire problema.
O Doppler vascular, por exemplo, investiga a circulação nos membros inferiores, detecta varizes e rastreia alterações de fluxo que comprometem a recuperação muscular. É um exame acessível, sem radiação, que dura entre 30 e 60 minutos e pode ser indicado tanto para o jogador profissional quanto para o corredor de fim de semana com queixas de cansaço nas pernas.
“A medicina do esporte de alto rendimento criou protocolos muito mais sofisticados do que o check-up anual padrão“, observa Dr. Mekhitarian. “Mas os exames em si, a ressonância musculoesquelética, o ecocardiograma, o ultrassom de partes moles, estão disponíveis para qualquer paciente. O que falta, em geral, é a pergunta certa na hora da consulta“.
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Fontes:
Dr. Armênio Mekhitarian – Diretor Clínico do Instituto Avançado de Imagem – Médico Radiologista – CRM SP 59.512 | RQE 45534
Morte súbita em atletas: protocolos e rotinas adotados por clubes de futebol profissional em São Paulo. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, SciELO Brasil. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/a/tWMkNLSLzKxHxk3PrCY5gWh/
Cardiomiopatia hipertrófica, atividade física e morte súbita. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, SciELO Brasil. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/a/6jstzDkRHZcMxDVZLcRnWpd/
Saúde ortopédica na Copa do Mundo de 2026: o desafio de preservar atletas em meio ao calendário intenso do futebol. Jornal Cruzeiro. Acesso em junho de 2026. Disponível em: https://www.jornalcruzeiro.com.br/opiniao/artigos/2026/06/761603-saude-ortopedica-na-copa-do-mundo-de-2026-o-desafio-de-preservar-atletas-em-meio-ao-calendario-intenso-do-futebol.html
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